Sobre Ocre, de Anita Ekman

LEIA EM INGLÊS

Christoph Irmscher

Tradução de Marcela Lemos1

A caverna, na República de Platão, é uma prisão, um lugar onde os humanos, ignorantes da realidade, passam a vida a contemplar as sombras das coisas (que são, na verdade, efígies de madeira de animais e plantas carregadas para além da caverna por homens escondidos atrás de uma parede). Quando um desses prisioneiros escapa e, depois de desfrutar da plenitude da vida ensolarada lá fora, volta para contar aos outros sua sobre experiência, eles não acreditam nele. Para eles, o fato de que esse homem retorna cego, seus olhos incapazes de se reajustar à escuridão da caverna, apenas confirma que é melhor ficar parado. A verdade é para quem se atreve a partir. Mas, como Platão bem sabe, nem todos podem ser filósofos.

A artista contemporânea, fotógrafa e performer brasileira Anita Ekman também nos pediria para permanecermos na caverna. Para ela, porém, partindo de uma rica tradição de milênios de criatividade artística, a caverna é, subversivamente, o mundo real, não uma farsa – um lugar de verdade, não de engano; de percepção, não de cegueira; de vida, não de morte; de luz, não de escuridão. A chave para essa revisão de Ekman é o ocre, um mineral avermelhado que contém ferro oxidado e que, moído e misturado a líquidos, era usado por nossos primeiros ancestrais para desenhar imagens, padrões abstratos ou histórias inteiras nas paredes das cavernas. O ocre tinha múltiplas utilidades: servia para a arte, como protetor solar e adesivo, para comunicação (que forma de atrair a atenção de alguém pode ser melhor que se pintar de vermelho?) e até, segundo pensam alguns pesquisadores, como um alimento que impulsionou o desenvolvimento do cérebro humano quando mais precisávamos: um rico suprimento de ácido docosahexaenóico (DHA), ferro, iodo e outros nutrientes que podem ter contribuído para que o Homo sapiens tomasse posse do mundo como nenhuma outra espécie antes.
 

Arqueólogos encontraram evidências do uso do ocre – ou, como coloca Ekman, “o sangue que dá vida às … pinturas rupestres” – em cavernas remotas no Quênia, Zâmbia, África do Sul, Austrália, Holanda e também na América do Sul, onde abrigos rochosos da Serra da Capivara, no nordeste brasileiro, contêm vestígios do povoamento mais antigo do continente. Ali, artistas antigos, traçando as ondulações naturais das rochas, empregaram vários tons de ocre para criar alguns dos exemplos mais notáveis da antiga arte rupestre no mundo– centenas de milhares de imagens, muitas delas parte de painéis de um metro de comprimento, exibindo animais então conhecidos (veados, onças, emas extintas, capivaras) e humanos em atividades como caça, dança, sexo, altercações e rituais. Investigações sobre ferramentas de pedra e lareiras mostram que os primeiros humanos viveram nessas cavernas há cerca de 50.000 anos—evidência que complica a teoria aceita de assentamento americano através do estreito de Bering e sugere conexões profundas entre as primeiras ondas humanas que povoaram a América do Sul e as culturas originários do continente africano.

Em colaboração artista multimídia Anani Dodji Sanouvi (nascido no Togo) e a atriz indígena brasileira Sandra Nanayna Tariano (de Rio Negro, Amazonas), Ekman, no verão de 2019, decidiu realizar uma série de performances (ou, como ela prefere chamá-los, rituais) para celebrar a magia do ocre. Posando diante de paredes rochosas decoradas com ocre na Serra da Capivara e em cavernas paleolíticas na Espanha, Ekman também cobriu seu próprio corpo com padrões em ocre, usando carimbos de cerâmica que ela mesma criou. Os destaques dessas performances aparecem em uma espécie de montagem fotográfica ou pergaminho que Ekman criou e que são similares às fluídas faixas de imagens produzidas pelos antigos artistas da Serra da Capivara. Três dos treze segmentos do pergaminho estão em preto e branco, mas essa ausência de cores serve apenas para realçar a sinfonia de cores que irradia das outras imagens: o amarelo, o marrom e o rico vermelho que fluem de um para outro conforme rocha e corpo se fundem, escuridão e luz se combinando para criar uma colagem que colapsa o passado e o presente, o pré-histórico e o moderno.
 
Obviamente, nem todas as imagens foram tiradas pela própria Ekman, já que ela também aparece em algumas delas. Parte do poder dessas fotografias deriva precisamente do fato de elas não vêm de uma fonte única: tem-se simultaneamente a arte que faz a imagem e a arte (ou múltiplas formas de arte) dentro da imagem, cada uma correspondendo e reforçando a outra. (Para fins de análise, separarei os diferentes segmentos do rolo; o pergaminho inteiro se encontra no site de Ekman).
 

Ekman trata as cavernas não como prisões mas como úteros, locais de renovação e renascimento, evocando uma tradição que se estende pelo mundo – pensemos nas cavernas de lava sagrada do Monte Fuji, no Mundus circular subterrâneo colocado sob templos etruscos e romanos, e na caverna na qual, segundo alguns relatos, Cristo nasceu. Várias porções da montagem de Ekman apresentam a própria artista nua, uma figura poderosa, orgulhosa e ctônica, seu corpo cheio e luminoso tanto um produto desse ambiente quanto seu símbolo controlador: uma resposta eficaz às imagens supostamente “etnográficas” em que a nudez serve para objetificar e humilhar, em vez de elevar, as mulheres indígenas. No primeiro segmento, Ekman está sentada em uma pedra, sua pele iluminada e suas pernas firmemente fechadas, uma máscara pressionada contra o rosto, sugerindo tanto controle quanto potencial para abandono, vulnerabilidade e disciplina – a essência do ritual.

Performance ritual de Anita Ekman “Ocre – Aborto da Vênus” na Toca do Inferno (Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí, Brasil). Maio de 2019. Fotógrafo: Edu Simões.

Na tomada seguinte, em contraste, o fundo está iluminado, enquanto as figuras de um homem e uma mulher aparecem em primeiro plano. Mais silhuetas que sombras, seus contornos distorcidos e exagerados, essas figuras não são – como Platão as consideraria – cópias de originais eternamente inacessíveis. Elas têm existência própria, vida própria, pois ambas representam o antigo drama da fertilidade, sendo a mulher a mais dominadora dos dois, inclinada para a frente, o seio acentuado, o poderoso braço direito erguido. O corpo dela, sólido e grande, contrasta com a figura mais delgada e elegante do homem.

Performance ritual de Anita Ekman e Anani Dodji Sanouvi “Ocre – Sombras” na Toca do Inferno (Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí, Brasil). Maio de 2019. Fotógrafo: Edu Simões.

Na série “Ocre,” de Ekman, entretanto, a feminilidade não é uma característica distinta ou exclusivamente humana, mas um princípio gerador compartilhado por todo um universo de coisas criadas, compartilhado até mesmo com as rochas, que, na série, se arranjam quase inevitavelmente em formas triangulares alusivas aos órgãos reprodutores femininos. A própria Ekman aparece dentro de um desses triângulos, formado pela luz que ilumina seu corpo. Diminuída pelo ambiente ao mesmo tempo em que santificada por ele, ela parece uma Vênus nascida não do mar, mas do que a poetisa estadunidense Sylvia Plath chamou “the jut of the ochreous rock,” ou “o pontão da rocha ocre.”

Performance ritual de Anita Ekman “Ocre na Toca do Inferno” (Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí, Brasil). Agosto de 2017. Fotógrafo: Ana Mesquita.
No segmento seguinte, as manchas ocre nas paredes, reminiscentes do parto e da menstruação e realçadas pela proliferação de formas clitoriais acima, parecem universalizar a experiência da feminilidade. Não há nada sugestivo ou provocante nessas fotografias. Em vez disso, o observador tem a sensação de testemunhar um processo elementar e a impressão de lhe ser permitido participar, com Ekman e seus colaboradores, de um ritual tão antigo quando a própria Terra. Uma foto em preto e branco mostra Sanouvi de costas para o observador, diante da parede de desenhos em ocre, costas e nádegas esbranquiçadas como se ele tivesse acabado de se levantar do chão – a falta de cores, nesse caso, empresta ao evento um significado quase religioso, algo que se repete nas duas fotos seguintes, também em preto e branco. Na primeira delas, Ekman, braços erguidos como se em prece, parece replicar a formação vaginal da rocha acima dela, enquanto a segunda mostra uma abertura semelhante, com a penetração da luz – uma revelação e uma inspiração, dando vida nova às pedras antigas.
 
Performance ritual de Anita Ekman “Vênus Ocre” na Caverna Paleolítica El Chufín (Cantábria, Espanha). Julho de 2019. Fotógrafo: Raquel Fernandez Nuñez.
Performance ritual de Anani Dodji Sanouvi e Anita Ekman “Ocre – Migrações” na Toca da Extrema (Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí, Brasil). Maio de 2019. Fotógrafo: Edu Simões.
Performance ritual de Anita Ekman “Ocre – Vagina Caverna da Terra” (Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí, Brasil). Maio de 2019. Foto: Edu Simões.
Performance ritual de Anita Ekman “Ocre – Vagina Caverna da Terra” (Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí, Brasil). Maio de 2019. Foto: Edu Simões.

Na minha cena favorita da série, Sandra Nanayna Tariano, com a pele adornada com padrões em ocre, uma maravilha estampada, aparece de pé diante de um painel de desenhos rupestres, com os braços estendidos numa posição que repete justamente a postura de uma das figuras da parede. O passado remoto e o presente recente se encontram aqui, unindo pedra e corpo, desenho na pedra e desenho na pele. A fotografia, produto da tecnologia moderna, celebra essa fusão, mas de forma a subverter as convenções .do retrato ocidental – aqui não há primeiro e segundo plano e, a qualquer ato singular de criatividade que tenha colocado o corpo pintado de Tariano diante da lente, já se anteciparam e sucederam vários outros atos de criatividade: os deixados na pedra pelos antigos artistas desconhecidos e os deixados no corpo de Tariano pelo carimbo de cerâmica ou pintadera feito pela própria Ekman. Condensando milhares de anos no instante capturado pela câmera, Ekman desafia não apenas uma tradição filosófica, na qual a verdade e o discernimento são vistos como resultado da jornada para fora da caverna, mas também a maneira como tendemos a escrever a história da humanidade, tão nitidamente dividida em períodos marcados pela conquista e pelo genocídio. O ocre estava lá desde o início; na obra de Ekman, ela simboliza a persistência, perseverança e resiliência das culturas indígenas.

Performance ritual de Sandra Nanayna Tariano e Anita Ekman. “Ocre –Pele e Pedra”) na Toca do Salitre (São Raimundo Nonato, Piauí, Brasil). Maio de 2019. Foto: Edu Simões.
“Ocre Vulva.” Toca do Extrema (Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí, Brasil). Agosto de 2017. Foto: Anita Ekman.

As mãos do Sandra Tariano, segurando uma das pintaderas, ainda escorregadia com o ocre vermelho, dominam a penúltima imagem da série. Há muito que as mãos fascinam os artistas, de Dürer a Michelangelo e ao escultor Henry Moore, que fez uma série de desenhos de suas mãos aos oitenta e um anos de idade: “As mãos transmitem tanto,” disse Moore, “elas podem implorar ou recusar, tomar ou dar, estar abertas ou cerradas, mostrar satisfação ou ansiedade. Elas podem ser jovens ou velhas, belas ou deformadas.” As mãos de Tariano estão abertas e generosas, segurando a pintadera para que o observador a inspecione como se fosse um bebê recém-nascido. Nesta fotografia, o fundo desfocado mantém a atenção do observador firme nas mãos, que não são quaisquer mãos, tampouco apenas as mãos da Tariano, mas obras de arte em si mesmas – não porque elas aparecem numa foto composta artisticamente, mas no sentido literal, cobertas como estão de estampas provavelmente feitas com a mesma pintadera que seguram.

Performance ritual de Sandra Nanayna Tariano e Anita Ekman. “Ocre – Pele e Pedra” na Toca do Salitre (São Raimundo Nonato, Piauí, Brasil). Maio de 2019. Foto: Edu Simões.
A série de Ekman termina com uma fotografia de apenas uma mão, desta vez, a da própria Ekman, com a palma aberta voltada para o observador, as pontas dos dedos molhadas pelo ocre vermelho. Desta vez, é importante, dado que na tradição iconográfica ocidental as mãos do artista são sempre masculinas, que esta seja reconhecidamente a mão de uma mulher e que essa mão esteja coberta, ou melhor, impregnada com um material que é muito mais que pintura: uma substância mais antiga que a tinta e profundamente associada ao poder vivificador pertencente às mulheres, um poder que, no entendimento de Ekman, equivale ao poder de fazer arte. Seria mais do que uma coincidência, assim, que alguns arqueólogos, depois de examinar impressões em ocre em cavernas na Espanha e na França, acreditem que elas apresentam características femininas, levantando a possibilidade – tentadora e, a partir da perspectiva da caverna luminosa de Ekman, inteiramente apropriada – de que as mulheres tenham sido, de fato,
 
Performance ritual de Anita Ekman “Ocre – A origem da reprodutibilidade da Imagem” na Toca Pinga do Boi, Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí, Brasil). Agosto de 2017. Foto: Ana Mesquita.

1Marcela Lemos (mardeoli@iu.edu) é doutoranda em português na Universidade de Indiana, Bloomington.

Share on facebook
Share on twitter
Share on email